Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006

A nova gramática dos segundos... e do primeiro!

No tempo em que americanos e russos queriam ser senhores do mundo (parece que os primeiros ainda não se curaram dessa tara) houve uma corrida em que participaram apenas dois atletas, um da terra do Tio Sam, outro do universo dos sovietes. À vista do (inesperado?) desfecho, os media ka-pagebianos eram unânimes: a guarda avançada do proletariado ficara orgulhosamente à frente do detestado e raquítico representante do imperialismo capitalista. Só que tinha ficado... depois do primeiro!
Que querem? Lembrei-me desta estória quando vi, durante tanto tempo, alguns que, no domingo passado acabaram por ficar "depois do primeiro", andarem a dizer que a vitória, para eles, seria passarem à segunda volta. E um pobre cidadão até pergunta: Se a primeira volta não conta por que não arranjam eleições só com a segunda volta?
Assim se não dava nenhum golpe de estado constitucional. Mas, por falar de golpe de estado, que vai fazer aquele ministro de Sócrates que disse ser isso mesmo que significaria a vitória de quem (parece) ele não quereria que vencesse? Vai esse ministro demi¬tir-se? Vai aceitar ser reconduzido por quem acusou de golpista? Esta é uma das curiosidades que ficam destas eleições. Mas há mais...

Num país que precisa de "nova gramática política" (disse Barbosa de Melo), que verbos vão ser conjugados, no presente e no futuro, que adjectivos vão qualificar os adversários, caracterizar a situação que se vive, identificar as mais que muitas preocupações da maioria dos portugueses? Que substantiva realidade lhes vai ser proporcionada, que conjunções vão ser estabelecidas? Ou ficaremos somente pêlos advérbis de "mente" e pelas interjeições de muitos sentimentos? Ou ganharão as pré-posições em vez dos artigos definidos?
Mas uma outra vantagem resultou deste combate. Muitos foram insistindo que, hoje em dia, não se vê o que possa separar a direita da esquerda, ou ao contrário. Nem os opositores conseguiram esclarecer essas "contrariedades". Mas um dos candidatos (pelo menos) foi fértil em falar da "alma da esquerda". Afinal nada de coisas sinistras. Até pode ser que essa alma venha animar outras almas...
Quando Cavaco Silva era primeiro-ministro andava-se, na Mealhada, às voltas com a construção da igreja paroquial e, sobretudo, à procura dos muitos escudos que eram necessários. No decorrer duma reunião (todos viviam a angústia da situação e não se vislumbravam saídas) alguém comentou: "A nossa sorte foi termos este governo pois, caso contrário (disse doutro " modo, mais frontalmente...), nunca teríamos obtido a comparticipação estatal". Foi o bom e o bonito. E suponho que as sequelas não desapareceram, pelo menos rapidamente. Valeria esta outra estória para reparar nas razões que terão agora levado à vitória o homem de quem "a maioria dos jornalistas não gosta", segundo conhecido apoiante doutra candidatura.
A este propósito lembro que mão amiga me fez chegar o texto onde o (antigo!) revolucionário Régis Debray (hoje leitor atento do diário La Croix!) afirma desalmadamente que "os políticos são os criados domésticos dos jornalistas"! E por aí adiante... Afinal, as voltas que o mundo dá! Há vinte anos Mário Soares foi eleito por vontade de cento e cinquenta mil portugueses... agora Cavaco Silva também não poderá orgulhar-se de muito mais... e Mário Soares estará a pensar "para que me meti eu nisto?"...
Que conselhos estarão entretanto a sugerir os seus ideólogos ao próximo habitante de Belém de Lisboa? Certamente que comece já a preparar a eleição daqui a cinco anos, que isto não é nenhuma monarquia, que ajude José Sócrates a não cair (ou a saber cair), que no almoço da tomada de posse tenha mais convidados que os três mil de há vinte anos, que não se feche em Belém mas que não gaste quatrocentos contos para ir ver um jogo de futebol em Aveiro, ou em Boliqueime, que não suba coqueiros e respeite as tartarugas, que não se esqueça dos amigos que o apoiaram (alguns sempre necessitarão de aigum apoio), que não deixe a justiça onde está (todos os grandes concordam que está mal na fotografia e os pequenos, coitados, sofrem as consequências), que arranje uma vassoura anticorrupção, que seja paladino do sadio optimismo lusitano, que seja mesmo presidente para todos os portugueses mesmo para aqueles que não o querem.
E que não faça Portugal crescer muito mais. E que com o aumento dos combustíveis é cada vez mais problemático cumprir grandes distâncias. E mudar cenários. Como aconteceu na noite eleitoral. Pelo menos em dois lados. E não esquecer que "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Que secreta razão terá levado um dos segundos a considerar este um dos "poemas da sua vida"? Se calhar nem reparou que também lhe podia acontecer.
.....
Abílio Duarte Simões
In:Correio de Coimbra, 26jan06
publicado por lamire às 17:48
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