Sábado, 6 de Janeiro de 2007

O CÓNEGO POVOA DOS REIS

Foi o Cónego Póvoa dos Reis um dos que marcou muito positivamente a maioria – se não a totalidade - dos alunos que frequentou o Seminário de Coimbra. Na sua humildade, embora detentor da dignidade de cónego e de uma ilustre carreira científica, preferia que os seus rapazes o tratassem por padre Póvoa.
 Nascido em Eirol, em 20 de Outubro de 1907 – aproxima-se o centenário do seu nascimento! - trabalhou com a família, no campo, onde ganhou gosto pela natureza vegetal e aprendeu a conhecer as mais diferentes ervas que encontrava.
 Segundo se encontra escrito, teve um percurso vocacional tardio, pois só entrou no Seminário de Coimbra no ano lectivo de 1930/31, com 23 anos, depois de muitas dúvidas e crises de Fé. Foi ordenado presbítero em 1936 e nomeado cónego em 1957.
 Foi um douto homem, autodidacta em Ciências Naturais, distinguindo-se na Botânica pela descoberta e classificação de várias espécies de plantas. Por isso, em 1943, foi nomeado membro da Sociedade Broteriana e, em 1956, assistente extraordinário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Pelo seu elevado mérito científico, em 1979, é nomeado membro da Academia de Ciências de Nova Iorque.
 Nos espaços do Seminário ou a caminho do Instituto Botânico, para as suas aulas universitárias, era vê-lo atarefado de um lado para outro, no vaivém da sua pesquisa ou trabalho científico, encafuado na sua batina preta que protegia dos percalços dos trabalhos com uma bata de zuarte.
 Era seu bordão para os espigadotes seminaristas respingões, entrados nas abstractas deduções filosóficas, o seu marcante “ Ó rapaz, ó rapaz!... Pés na terra, pés na terra!”
 Esta sua máxima vai tentar pô-la em prática mediante a criação do IDESO (Instituto D. Ernesto Sena de Oliveira, então, Arcebispo de Coimbra) procurando contribuir, assim, para formação humana e cristã dos seus seminaristas e universitários que com ele se cruzavam no dia-a- dia e cujos problemas ele bem conhecia, pois estava-se na inovadoramente contestária década de sessenta.
 Ele tinha sido essa lufada de ar fresco do Concílio, sacudindo as poeiras acumuladas durante séculos nas janelas do Vaticano - e que agora teimam em regressar – abrindo a Igreja ao mundo e ao reconhecimento da dignidade de toda e cada pessoa humana; ele era a contestação dos velhos métodos de ensino nas Universidades; era a Guerra Colonial, com todos os problemas humanos, psicológicos e morais que acarretava; era o início da era da globalização, etc..
 Pois, Póvoa dos Reis vai dispor de parte do seu património familiar, em Eirol, para aí se construir uma casa de acolhimento a estudantes, sem olhar a crenças, sexos e nacionalidades. Seria o que quase se podia chamar um centro ecuménico em acção ou algo de parecido com a Comunidade de Taizé, então não tanto na berra como hoje.
 A juventude que voluntariamente lá ia passar as suas férias começou por ter o trabalho de iniciar a construção da obra, fazendo os serviços de trolha e pedreiro, durante algumas horas do dia, confeccionando a sua comida, e dispondo de tempos de encontro e reflexão sobre os problemas que se abatiam sobre o mundo e a juventude.
 Muitos dos que por lá passaram recordarão desses tempos as melhores impressões.
 A este bom homem ficaram, ainda, a dever o Seminário e os seus alunos a partir dos anos 40 do século passado o incremento do gosto científico baseado em métodos de experimentação e análise.
 Por sua iniciativa e trabalho, foram criados, no corredor de acesso ao refeitório do Seminário, a ´Sala dos Bichos` - espécie de pequeno Museu Zoológico e Mineral -, o Laboratório de Química e o Laboratório de Física.
 Não sendo eu pessoalmente dotado para estes ramos do saber, recordo o esforço que tinha de fazer, olhando pela objectiva do microscópio, para descortinar o que quer que fosse, embora com o máximo de ampliação que o instrumento permitia. Enfim, a classificação de nabo não ficaria nada mal. Mas não era só a mim; outros sentiam as mesmas dificuldades, mas por culpa nossa, que não do professor.
 No exame das referidas disciplinas, as voltas que se tinham de dar ao ´catrapázio` que nos fornecia para, a partir dos elementos observados e seguindo percursos remissivos, se chegar à classificação da planta ou do calhau que nos coubera em sorte. Se não fosse tantas vezes o circulante espírito-santo-de-orelha de alguém mais entendido no assunto que nos dizia o nome da planta ou pedra que tínhamos à nossa frente, o caso ficava pardo. Recordo-me que a mim alguém me bichanou o nome de arroz-dos-telhados. E então sim, foi possível fazer o percurso pretendido, mas ao invés, o que era muito mais fácil. E lá me consegui ´safar`, embora o professor, por norma, avaliasse os alunos mais pelo esforço dispendido do que pelos resultados obtidos.
 Dos laboratórios contam-se duas histórias engraçadas, uma veridíca e outra, ´si non vera est fama`, por lá andará perto.
 A primeira passou-se no Laboratório de Química, onde o apaixonado pelas ciências e seguidor das pegadas do Pe Póvoa, João Simão, que depois veio a ser Professor Catedrático, procedeu na presença dos alunos à experiência da electrólise da água, recolhendo o oxigénio e o hidrogénio dela resultante, nos respectivos balões. Ora, quando quis comprovar os resultados obtidos, esquecendo não sei que pormenor, chegou o fogo ao balão do hidrogénio que explodiu quase uma bomba, atordoando todo o Seminário que, pressuroso, acorreu ao local. Felizmente, foi mais a fumarada, o barulho, o susto e a inolvidável história resultante do que as consequências de danos corporais. Mas ficou bem provado que a água é H2 O, lição que os alunos nunca mais esqueceram.
 A segunda consta ter-se passado quando o Pe Póvoa procedia à montagem de uma máquina demonstradora do processo de produção de electricidade. Era composta esta máquina por um grande círculo de vidro que, ao rodar, provocava por fricção no indutor e induzido um campo electromagnético, formando-se assim corrente electrostática.
 Andava o Pe Póvoa entretido na montagem do aparelho, aproveitando para isso todos os momentos disponíveis, incluindo alguns minutos antes do almoço que ele e os padres tomavam no refeitório mesmo ao lado do Laboratório de Física. E todos os dias antes desta hora lá lhe aparecia uma curiosa visita que se tornou habitual. Era o nosso sábio homem, de tronco bem erecto e barriga um tanto saliente, olhos buliçosos e pesquisadores por detrás das lentes dos seus grandes óculos brilhantemente acastanhados:
 - Vamozz! Então, Póvoa, quando é que dász à luzz? – E por ali ficava encantado com o cristal da máquina.
 Tantas vezes a cena se repetiu que o Pe Póvoa – que até nem era assim muito para essa coisas! – teve ocasião de pensar a sua maroteira, que Deus já lhe terá perdoado.
 Acabada a montagem da máquina, esperava ele a habitual visita, com a ritual pergunta:
 - Vamozz! Então, Póvoa, já deszte à luzz?
 - Está quase, está quase! Mas agora, para terminar, precisava de alguém que me ajudasse – respondeu com um sorriso maroto no canto do olho. - Olha, Brito, pedia-te o favor de segurares estes fios, um em cada mão, aqui pela extremidade. Aperta bem! Aperta bem!
 O Pe Póvoa accionou com toda a força a manivela da roda e o Brito saltou, desarvorando por ali fora, sacudindo as mãos, num griteiro:
 - Chiça, Póvoa, chiça!...
 E assim ficou comprovado que a máquina funcionava.

....

Fernando Neves

publicado por lamire às 05:40
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4 comentários:
De beatonuno a 6 de Janeiro de 2007 às 12:19
Fernando Neves,
continuas à altura dos teus pergaminhos.
Passados já tantos anos conseguiste captar aqueles traços fundamentais que caracterizaram o P. Póvoa.
E sabes dizê-lo de uma forma atraente.
Vais assim criando uma galeria de figuras que continua a preencher o nosso imaginário da juventude.
Seria já tempo de se pensar, a sério, na publicação destes textos.
De Ver para crer a 28 de Janeiro de 2007 às 16:39
O Beato Nuno tem razão. Era interessante juntar todos os textos que ambos publicaram (e eventualmente outros) e dar-lhes publicação.
Bem o merecem e crei que todos ganhariam com isso.
Eu candidato-me a compradpr.
De Ver para crer a 28 de Janeiro de 2007 às 16:40
O Beato Nuno tem razão. Era interessante juntar todos os textos que ambos publicaram (e eventualmente outros) e dar-lhes publicação.
Bem o merecem e crei que todos ganhariam com isso.
Eu candidato-me a compradpr.
De Anónimo a 13 de Junho de 2007 às 23:04
Caro amigo:
Sou de Eirol, terra natal dessa grande figura que foi o Padre Póvoa. Estamos a pensar comemorar o centenário do seu nascimento. Caso queira participar ou divulgar esta iniciativa, junto da comunidade científica, ficar-lhe-emos eternamente gratos. Pensamos que o nosso querido Padre Póvoa o merece.
Aguardo comunicação de sua parte.
João Carvalho
E-mail: joao.carvalho@suriterra.pt
Tel: 967395735

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