Domingo, 25 de Dezembro de 2005

A Minha História de Natal

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Recordo sempre esta história que, em criança, ouvira contar à minha avó e que se tomou numa imagem de Natal.
Diferente, por razões da minha própria ingenuidade e por não ser uma fábula ou ficção, apesar de ter acalentado a minha fantasia de catraia.
Natural de uma aldeia beirã, na noite da consoada, a família concentrava-se à volta de um tronco que entretinha a fogueira serão adentro.
Nas panelas de ferro coziam-se as couves e as batatas enquanto, suspensa na corrente, a caldeira de cobre enchida de azeite fritava as filhós que tinham fintado desde a manhã.
O arroz doce enfeitava a mesa aromatizando os narizitos da pequenada e a broa quente, acabada de megar do fomo, em cesta coberta por um pano branco de linho, ocupava o lugar mais perto do lume mantendo-se morna até à ceia.
Os homens provavam a medronheira, entremeando-a com algumas passas de figo e os camopos lá se iam contentando com uma filhó dividida pelos quatro, sentindo o estômago aconchegado até à janta. Uma das mais pequenas não largava a saia da mãe,
olhando-a singelamente em todos os seus gestos, seguindo-a em todos os seus passos com um sorriso de anjo, perfumando o ar com um suave cheiro a alecrim.
- "Aquela menina era do céu", dizia a minha avó mas pouco tempo depois, Laurinha morreu.
Todos as noites de Natal a azáfama repetia-se numa sucessão de sabores e odores que regalavam os mais novos e os mais velhos.
Porém, no ano seguinte, sobejava a memória da doce pequenina que vivia agarrada às saias da mãe, lhe sorria cada vez que entrelaçavam os olhares e deixava aquele aroma a alecrim "porque aquela menina era diferente".
A minha avó, como se as mágoas tivessem prazo, "já tinha tido um ano para morar" e, não fosse só estar grávida outra vez, o resto da pequenada reclamava a sua atenção, a massa das filhós estava pronta para estender, as couves já ferviam na panela e os homens já tinham a sua conta de medronheira.
A meia noite, por tradição, cantava-se o nascimento de Jesus e as vozes uniam-se entoando alguns cânticos " bendito e louvado seja o Menino que nasceu pelo Natal e mai-lo ventre que o trouxe por nove meses escondido...".
Nesse momento mistificado de religiosidade e de paladares "deu-me um aperto no coração", expressão que deixava nos olhos da minha avó um brilho mesclado de emoção e de esperança.
Relembrava aquela sua menina que já subira ao céu e, sem saber se por acaso ou se por amor divino, abriu o postigo que lhe ficava nas costas, talvez porque o fumo se concentrara à sua volta, esquecida de atiçar o lume.
- "Entrou uma borboleta branca que me poisou no regaço e, logo depois, bateu as asas e saiu.
Olhei para o céu límpido e estrelado, o ar era gelado e benzi-me somente porque senti o meu ventre abençoado".
A minha avó contava-me esta história sempre envolta numa simplicidade tão pura que, algumas vezes, me foi dada a ilusão de inalar um suave odor a alecrim.
Os anos passaram, quantos já passaram depois da morte da minha avó e continuo a recordar esta história com a mesma candura com que me foi contada, tornando-se na minha referência de Natal.
A vida foi-me ensinando a compreender esta história e a arrecadar dela aquilo que em criança eu não entendera.
Neste Natal, em que a morte da minha mãe me cerca, em que sinto escapar-se-me o seu regaço, em que regateio as amarras da minha infância, estaco-me no desespero de quem não sabe tender aquelas filhós escarpeadas, de não ouvir o crepitar do tronco na fogueira, de ficar com a voz tolhida quando tento trautear os cânticos do nascimento, sobrando-me nos olhos o orvalho esperançado de um dia, pela minha janela de Natal, ver entrar uma simples borboleta branca que proteja as minhas recordações.
........
Martinha do Vale
in: Diário As Beiras, Contos de Natal, nº7, Natal 2005
publicado por lamire às 23:57
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