Sexta-feira, 3 de Março de 2006

Responsáveis? Todos! Imunes? Alguns!

Apetece começar com uma provocação. Não tivesse acontecido tragédia semelhante, dias antes, em Paris, não tivessem sido afloradas possibilidades de se estar em presença de um caso com sintomas de arabização (hábil e rapidamente desmentidos...) e os jovens que, no Porto, atacaram e maltrataram um sem-abrigo, abandonando-o, primeiro, e escondendo, depois, o cadáver, acabariam por ser tratados de maneira bem diferente. E a instituição que os acolhia a quase todos. E não se questionam aqui as responsabilidades que ela possa ter, por se desconhecerem.
No caso do Porto (fica a dúvida se, relativamente ao de Paris, haverá mais notícias), começando pelo mais óbvio: ninguém se apercebeu de nada, ninguém ouviu qualquer grito do infeliz brasileiro, ninguém desconfiou de coisa alguma? Pêlos vistos, não. É fácil transportar de um lado para outro um moribundo, sem deixar qualquer rasto? Pêlos vistos, é. Pese embora a tétrica descrição que é feita da trágica garagem, a Câmara do Porto cobrava meio euro a quem ali estacionava uma viatura durante uma hora. Ninguém é responsável pelo espaço? Pêlos vistos, não.
"Portugal está a ver-se ao espelho! Lia-se num cartaz aparecido na vigília em que cerca de cinquenta pessoas se reuniram em repúdio pela morte da transexual Gisberta". Não tendo de acusar de oportunismo o mesmo cartaz, não deixa de se reparar que as críticas dos manifestantes incidiram sobre a homo fobia! Tinha de ser.
Mas deixem-nos reparar que não é essa atitude (ou apenas ela) que está em causa. Iguais...ou diferentes, todos deviam merecer o mesmo respeito mesmo numa sociedade que não sabe ajudar a respeitar. Que deixa ridicularizar tudo e... condena um candidato a historiador, que, durante anos, não reconheceu o Holocausto, que deixa os papparazi fazerem tudo o que entendem para, passados tantos anos sobre a data da morte de duas pessoas, os condenar a pagarem um euro de multa, que faz todo o estardalhaço conhecido à volta do caso Casa Pia e admite que tudo volte ao início, em nome de legítimas habilidades forenses, que descobre "perigos abstracto-concretos" sabe-se lá onde e não consegue impedir aquilo que, depois, diz combater com afã!
A estes exemplos, discutíveis, se quisermos, acrescente-se a seguinte consideração: "O processo de estigmatização não pode iniciar-se na fase de formação da personalidade, deve haver outros mecanismos de aprendizagem dos efeitos dos próprios actos, o macro-problema abrange fenómenos crescentes de delinquência grupal e urbana e baixar a idade penal é de grande severidade e não atende à reinserção social". A frase, da minha responsabilidade, pretende resumir (por isso as aspas) as intervenções na Assembleia da República, perante uma proposta para baixar a idade a partir da qual os menores podem ser presos.
Nenhum dos nossos parlamentares contrariou a proposta com a possibilidade (real, segundo se diz) de a cadeia constituir a melhor escola para quem ainda não esteja completamente "formado"... Mas também não falaram em realidades tão prosaicas como a falta de autoridade (Está bem, acusem de autoritarismo...) nas escolas, a burocratização até nos processos escolares mais fáceis, as limitações das comissões de protecção de menores que, pelo menos a nível local, deveriam (digo eu) estar desligadas de certas intervenções, a impossibilidade de dizer "isto não se faz" (por exemplo passar mais horas, durante um ano, em frente da televisão do que na escola), a tranquilidade porque usamos novas expressões, desde "famílias desestruturadas" até "bullying escolar" ou "comportamento de psicopatia"...
A tragédia é bem mais vasta do que os exemplos.
Acrescento outro.
Conscientemente ou não (não tenho a certeza de a pressão urbanística não estar contente...), tudo se tem feito para despovoar meios (mais) pequenos e para que surjam grandes aglomerados. Não é factor único (longe disso) mas não estará a ajudar a que o "mau selvagem" (afinal não é nada bom...), civilizado e cosmopolita miserável chegue a situações destas?
Parece que os pais daqueles rapazes não puderam educá-los. E o que terá acontecido aos avós?... Os rapazes serão (a confirmarem-se as suspeitas) responsabilizados de acordo com a nossa organização social. Talvez a nossa sociedade fique tranquila. Pelo menos há-de culpabilizá-los, mesmo que não saiba educá-los para a responsabilidade.
E mesmo que se ria do que escreveu Bento XVI, na sua mensagem para a Quaresma, não fará mal reparar nestas palavras: "Como frequentemente dizia Teresa de Calcutá, a primeira pobreza dos povos é não conhecer Cristo. Sem essa perspectiva, uma civilização não é construída sobre bases sólidas".
…
Abílio Duarte Simões
In:Correiode Coimbra
4119-3mar06
publicado por lamire às 15:44
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