Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005

O menino mais solidário

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O Natal continua a ser a festa da solidariedade: com a família, com os amigos, com os mais pobres. Apesar de muitas práticas "pagãs", este dia recorda para muitos, sobretudo os cristãos, o maior exercício de solidariedade jamais realizado. A solidariedade do nosso Deus, que não quis ficar fechado no "quentinho" do seu amor infinito, mas se abriu, criando o mundo e o homem.
Por isso, o Natal, mais do que uma festa de solidariedade, é não só o fundamento da solidariedade, mas também os eu modelo posto em prática pelo próprio Jesus, que com o seu nascimento, vida, morte e ressurreição nos fornece os critérios mais consistentes.
Com o seu nascimento, Jesus quis "abandonar"a sua condição divina para assumir em plenitude a condição humana e fê-lo com tal eficácia que os seus conterrâneos perguntavam, anos mais tarde, "mas não é este o filho de José?" (Lc 4, 22).
Estes dois gestos destacam duas características que a solidariedade deve assumir. O seu "aniquilamento" (Fil 2,6-8) indica que devemos descer do pedestal da nossa auto-suficiência e do nosso modo de ver o mundo para respeitar o outro como ele é ou quer ser, não tentando sequer impor-lhe o nosso conceito de felicidade. Só assim, libertos interiormente, podemos assumir a condição do outro, pois não basta aceitá-lo ou respeitá-lo; é também necessário por-mo-nos na sua pele, olhar a história do seu ponto de vista e ser capaz de perceber o que há de bom nele e a partir daí colaborar e crescer em conjunto.
Da sua vida, que S. Pedro resumiu no "passou a vida a fazer o bem" (Act 10,38), vemos que Jesus, por um lado, estava atento as necessidades específicas de cada um e procurava dar-lhes solução e, por outro, com o seu estilo de vida, punha em causa a organização social do seu tempo naquilo que ela tinha de injusta e discriminadora. Assim também nós devemos estar disponíveis para servir os outros nas suas reais necessidades e não naquelas que pensamos que ele tem: ninguém é dono ou critério de vida para ninguém; a vida é de cada um e cada um é único e irrepetível (ChL 37; 40). Por outro lado, a solidariedade implica pôr em causa e denunciar não só as situações pontuais de injustiça mas também os critérios dominantes que violam a dignidade de cada pessoa, as práticas políticas ou sociais marginalizadoras já rotinadas na nossa sociedade.
No fundo, Jesus morreu porque pôs em questão o modelo de sociedade do seu tempo. S. João recorda isso mesmo naquele relato em que os sumos-sacerdotes e os fariseus se reuniram para ver o que devia fazer para que Jesus não os pusesse em causa. E Caifás não hesita: "ou ele ou nós; por isso, é preciso que ele morra" CJo 11.47-50).
A trilogia pascal fornece mais critérios para a vivência da solidariedade. Da paixão temos de reter o sofrimento. Talvez nunca tenhamos pensado nisso. Mas o sofrimento faz parte do amor e da solidariedade, porque não há solidariedade sem esforço que sempre tem de ser despendido, sem desgaste de não ver as coisas avançar tão lentamente, sem a sensação de impotência de nada mais poder fazer (JM 30) e até de tantas vezes sentir a incompreensão de quem nos dispomos a ajudar. A Sagrada Escritura lembra-nos este tipo de desgaste no modo como os israelitas recebem a iniciativa libertadora de Moisés (Ex 5,21).
Da morte, fica-nos o desafio contínuo de ter de abandonar práticas caducas ou ineficazes, de abandonar a rotina, que também pode desvalorizar o nosso "fazer bem". A morte, neste sentido, é sempre ter de morrer para coisas velhas e caducas para dar lugar à "ressurreição" de novas soluções, mais adequadas à novas realidades, pois vivemos num mundo em profundas mudanças a colocar continuamente problemas novos que exigem respostas novas.
João Paulo II diz isto com palavras inesquecíveis: "E o cenário da pobreza poderá ampliar-se indefinidamente se às antigas pobrezas acrescentarmos as novas que, frequentemente, atingem mesmo os ambientes e categorias dotadas de recursos económicos, mas sujeitos ao desespero da falta de sentido, à tentação da droga, á solidão na velhice ou na doença, á marginalização ou à discriminação social. O Cristão, que se debruça sobre este cenário deve aprender a fazer os eu acto de fé em Cristo, decifrando o apelo que Ele lança a partir deste mundo da pobreza, Trata-se de dar continuidade a uma tradição de caridade que teve inumeráveis manifestações nos dois milénios passados, mas que hoje requer, talvez, ainda maior capacidade inventiva. É hora de uma nova "fantasia da caridade" que se manifeste não só bem sobretudo na eficácia dos socorros prestados, mas na capacidade de pensar e ser solidário com quem sofre, de tal modo que o gesto de ajuda seja sentido, não como uma esmola humilhante, mas como partilha fraterna" (NMI, 50)
……
José Dias da Silva
Correio de Coimbra,22.12.05
publicado por lamire às 11:33
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