Sábado, 4 de Fevereiro de 2006

Cultura ecuménica e identidade religiosa

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Todos os anos a Semana da Unidade dos Cristãos oferece o ensejo para uma reflexão sobre o tema das relações entre os crentes da fé em Cristo transmitida pela mesma Bíblia. Esta, sendo património comum de todos, pode ser considerada a ponte de ligação entre as diversas confissões cristãs.
E é também a partir dela que se estendem os horizontes para outras religiões não cristãs, os ateus e os agnósticos.
O actual papa Bento XVI tem manifestado uma preocupação grande pelo diálogo ecuménico, em particular com a Igreja Anglicana e a Ortodoxia, demonstrando assim o seu empenho pela aproximação de todos quantos recorrem à mesma fonte que ao longo dos séculos saciou o espírito de muitos.
A Semana da Unidade deste ano serve para lançar a 3." Assembleia Ecuménica Europeia (AEE3), convocada pela Conferência das Igrejas Cristãs Europeias (CEC) - que reúne todas as confissões cristãs excepto a católica, e o Conselho das Conferências Episcopais Católicas da Europa (CCEE). Este evento culminará em Sibiu (Roménia) de 4 a 8 de Setembro de 2007.
A literatura sobre o ecumenismo tem abundado e as análises que se fazem aprofundam aspectos muito diferentes, especialmente depois do Vaticano II.
A título de exemplo, lembramos três estudos importantes: um artigo aparecido numa revista francesa em que os seus autores, bons conhecedores do problema do ecumenismo, um padre de S. Sulpício e um pastor protestante, falam da "Declaração de paz em países de ecumenismo"; Peter Neuner, professor de teologia dogmática e ecuménica na Universidade de Munique e autor de vários livros e estudos, chama a atenção no seu último livro «Teologia ecuménica.
A busca da unidade das Igrejas cristãs» para aspectos relevantes acerca da história do movimento ecuménico e dos principais problemas teológicos que envolve; Thomas Sõding, professor de Teologia Bíblica na Universidade de Würburg, escreve acerca da actual discussão ecuménica; já em 2003, o cardeal Walter Kasper falava da Igreja Católica e das suas relações ecuménicas e escrevia que não há nenhuma razão para uma resignação.
A exposição sobre "Torah, Bíblia, Corão" (actualmente no Museu do Eouvre) e as que as dioceses de Espanha têm realizado sob o lema «Lãs edades dei hombre» são manifestações culturais de enorme alcance que muito têm contribuído igualmente para uma melhor compreensão do intercâmbio inter-religioso.
Do conjunto dos trabalhos referidos, podemos colher algumas ideias de grande interesse para o momento presente. Antes de mais, referem o que tem sido feito e chamam a atenção para uma série de questões que a todos se colocam entre consensos e controvérsias. Sem falar de outras separações anteriores, a mais conhecida foi a do cisma do Oriente (1054) que dividiu a Igreja de Constantinopla da Roma, à qual se seguiu a Reforma de Eutero. Depois do absolutismo confessional, a divisão dos cristãos arrastou consigo consequências em todos os domínios da vida: religião, política, sociedade, cultura, etc.
A demarcação era doutrinal e territorial. Isto impedia os bons resultados das tentativas realizadas. Eeibniz, Spinoza e Bossuet procuraram fazer ver que o concílio de Trento não foi como ecuménico e tentaram a unidade das Igrejas através dum concílio de união. Só nos sécs. XIX-XX é que o ecumenismo tomou as dimensões que hoje conhecemos.
Com frequência se afirma que o ecumenismo atravessa uma fase de dúvida e de cepticismo.
Os muitos documentos aprovados e aceites e os encontros promovidos não geraram aquela aproximação que parecia óbvia, constatando-se a falta de receptividade por parte dos adeptos das comunidades envolvidas. Ela não aparece, porque a procura ecuménica pode parecer uma agressão, como se se pretendesse suprimir tradições multisseculares.
No fundo, há uma falta de cultura ecuménica que tem causas diversas, sendo uma delas a falta de conhecimento das outras confissões (ou religiões e atitudes).
Seguindo o pensamento dos especialistas mencionados -aliás na linha do Vaticano II e de outros textos eclesiásticos - o que antes de mais se deve procurar é a identidade própria de cada confissão e criar uma atitude de compreensão e conhecimento dos outros.
Da identidade passar-se-ia à autenticidade, da discussão teórica a uma vivência impregnada de espiritualidade.
Esconde-se o essencial da fé por detrás de pormenores e os dogmas aparecem como obstáculos intransponíveis, como se fossem eles a gerar a identidade das diversas Igrejas. Daí surgir o medo de se perderem direitos, de se enveredar pela dogmatização (espécie de fundamentalismo), ou então no pólo oposto pelo relativismo universal.
A catequese, o estudo e a reflexão são vias propedêuticas para o ecumenismo que tem na vivência da fé e na prática uma função pedagógica de relevo. O apego a tradições sem base válida, o receio de perder a identidade e o proselitismo funcionam como barreiras impeditivas de ultrapassar o diálogo e a comunhão ecuménica.
Daí que o problema da recepção dos textos oficiais passe ao cepticismo e ao temor de agressão aos crentes.
Procurar e edificar a paz leva a superar o literalismo na interpretação dos textos sagrados que pode conduzir ao fundamentalismo fazendo com que obscureçam a abertura à fé e à prática do amor.
Karl Barth falando da conversão escreveu que ela deve significar essencialmente conversão a Deus (não ao Deus autoritário o que seria uma desfiguração), ou seja, viver segundo o espírito e não segundo a carne. A frase "Que venha o teu Reino" traduz a ideia de que toda a criação aspira a uma libertação que ponha termo à fome de liberdade: «Vem, Senhor Jesus» («maran-atha»).
Continuando o seu pensamento o célebre teólogo alemão conclui: importa sim converter-se a Jesus Cristo e não a outra Igreja.
O tema da Semana da Unidade deste ano: «Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles» (Mt 18, 20) aponta, para além da oração, para outros âmbitos da vida, como a espiritualidade bíblica, o serviço à comunidade, a preocupação pêlos problemas que afligem a sociedade, entre os quais referimos a ecologia, as causas da paz e da justiça, a ética e a dignidade humana.
Aos responsáveis impõe-se a responsabilidade de levar por diante aprofundar o património dos outros. A cultura ecuménica constitui um enriquecimento que ajuda a radicar melhor a identidade de cada confissão cristã.
..........
Dr. Manuel Augusto Rodrigues,
In:Correio de Coimbra, 26jan06
publicado por lamire às 16:58
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