Sábado, 4 de Fevereiro de 2006

Os críticos de Bento XVI

"Antigamente" dizia-se que "Deus escolhia sempre o Papa necessário para cada momento histórico". E como as justificações da afirmação eram feitas "a posteriori" até nem era difícil encontrá-las! Será que está, agora, a acontecer o contrário?
Depois do que os críticos que até o são antes de o serem disseram de Ratzinger, depois das críticas à escolha do novo pontífice, depois dos desencantos, sobretudo laicos, perante Bento XVI, esperavam-se críticas, igualmente contundentes, sarcásticas, desrespeitosas até, à sua primeira encíclica, nem que contrariassem profundamente o tema que aí se propõe.
Nada disso parece ter acontecido! Ainda é cedo, ainda não houve tempo para análise aprofundada, ainda podem surgir essas críticas violentas? Tem sempre de contar-se com essa possibilidade mas... a primeira reacção ou é de silêncio (que também não é bom!) ou algumas observações menos entusiastas surgem de dentro, ou quase.
Como no caso de Hans Kung pois o antigo colega de Ratzinger limitou-se a desejar que haja consequências corajosas... nas estruturas da Igreja! E quem não desejará que haja essas consequências? Só quem é adepto das desastrosas!
Deixando para os entendidos a análise saudavelmente crítica da nova encíclica, repare-se, por exemplo, no número 25: "A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus, celebração dos Sacramentos, serviço da caridade. São deveres que mutuamente se reclamam, não podendo um ser separado dos outros.
Para a Igreja a caridade não é uma espécie de assistência social que pudesse mesmo deixar-se a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência".
No número anterior já tinha lembrado que as más desculpas são justificações... de sempre, não foram inventadas hoje. Bem diferente é a proposta: "Toda a actividade da Igreja é manifestação dum amor que procura o bem integral do ser humano... O sonho (marxista) da panaceia de, com a colectivização dos meios de produção, tudo caminhar melhor, desvaneceu-se... No diálogo entre todos os que seriamente se preocupam com a pessoa e o seu mundo... a caridade será sempre necessária, mesmo na sociedade mais justa".
No domingo passado os praticantes católicos da Diocese de Coimbra foram convidados a colaborar, com o seu dinheiro, na tarefa diocesana de atender aos padres que não recebem das comunidades que servem o mínimo indispensável para um mínimo de dignidade.
As portas das mesmas igrejas grupos de jovens atentos, disponíveis, generosos, solicitavam uma oferta para "ajudar os leprosos", pois esse era o dia particularmente proposto para tal convite. Em bastantes das mesmas igrejas, numa espécie de concorrência, anónimos cidadãos estrangeiros, solicitavam "esmola para uma família, com cinco filhos, sem comer, um doente, outro a necessitar de urgente operação…”.
Entretanto, a vaga de frio desse dia fez que "a Câmara de Lisboa disponibilizasse um espaço onde os sem-abrigo pudessem acolher-se e quem quisesse fizesse chegar cobertores" e, pela mesma razão, "a Câmara e o Metropolitano tinham acordado (entenda-se chegado a acordo!) para que três estações ficassem abertas durante a noite".
Já eu tinha feito um raciocínio crítico quando vi o presidente da Câmara a dizer que "tal preocupação não era factual mas permanente pois para o Verão teriam de ser tomadas outras medidas, de acordo com as circunstâncias". Pêlos vistos na Primavera e no Outono não há problemas...
Ainda no mesmo dia noticiava o "Público": "Pagava 28 euros de renda à câmara e vestia Fátima Lopes e é de luxo o elenco de advogados que defende este e outros arguidos". Finalmente, no mesmo dia, um outro jovem protestava: "Na minha terra há gente que trabalhou e descontou toda a vida a receber trinta contos por mês e a precisar de quarenta para a farmácia e há gente que nunca trabalhou, que não trabalha, nem precisa, pois com o rendimento mínimo (nem reparou que o nome já não é este!), recebe mais do dobro".
"Os leigos não podem abdicar da múltipla e variada acção económica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum... A caridade deve animar sempre a existência dos fiéis leigos e, consequente-mente, também a sua actividade política vivida como caridade social".
"A caridade não é proselitismo", lembra Bento XVI, pois "o amor é gratuito e não é realizado para outros fins".
Com alguns dos casos que apontei atrevi-me a partilhar a reflexão de quem acrescenta "proselitismo é evidente que não mas também não podemos proceder com angelismos.
E, às vezes, não sabemos onde deve terminar a nossa participação pois pode estar a começar a exploração, mesmo com ar mais angélico do mundo. E não encontramos resposta para tudo. Nem podemos dispor sempre de dinheiro".
"Só se contribui para um mundo melhor fazendo o bem agora, com paixão, em todo o lado onde for possível" mas... escreve igualmente Bento XVI, "o vilipêndio do amor é vilipêndio de Deus e da pessoa". Claro que não estava a referir-se a estes enganos...
Já agora quem ler cuidadosamente a encíclica faça favor de não reparar nalguns erros da tradução portuguesa. Só como exemplo, "o Oitocentos", no numero 26, será o século XIX?... E, no número 27, "aqueles que se preocupam seriamente do homem e do seu mundo" não devem, antes, preocupar-se com o homem e com o seu mundo? E claro que aquele homem deve ser... homem e mulher.
.............
Abílio Duarte Simões
In: Correio de Coimbra, 02fev2006
publicado por lamire às 17:08
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