Domingo, 10 de Dezembro de 2006

A vida do Professor

Acabo de acordar, depois de uma noite pouco e mal dormida, pois saí ontem, após um dia de trabalho lectivo, de uma reunião do Conselho Pedagógico, com início às 17:45 e fim às 23: 55 horas. Estes Conselhos Pedagógicos ou ´Apedagógicos`, a ritmo de 2 ou 3 por mês, são quase só um gasto inútil de tempo e energias para tentar pôr em prática uma legislação platónica, elaborada por mentes quiméricas que vivem no puro mundo das essências cognoscitivas, não sendo capazes de apresentar nenhum modelo concreto das "aberrações" que vomitam cá para fora, agora já não em papel, (a não ser que seja, em primeira mão, na Imprensa para uma operação de charme e surpresa dos professores), mas via o tal "choque informático".

Exemplificaria com o caso da famosa TLEBS – que é outro que tal ! – e da sua aplicação. As escolas – e não só - têm andado à nora com   tamanha aberração filosófico-abstracto-subjectiva de linguistas iluminados que não conhecem a pouca capacidade dos alunos do Ensino Básico para tão altos voos de abstracção, resultando depois numa queda livre ao nível das competências essenciais da comunicação oral e escrita ou até mesmo da simples leitura e compreensão dos textos da sua língua materna.

O caso é que quisemos inteirar-nos das novas terminologias e, a princípio, só na Internet apareciam algumas coisas, mas contraditórias entre si, até que, em certa altura, a DGIC (Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular ou diarreia geral intelectual da comunicação?) informa quais os anos de ensino que, no presente ano lectivo entrariam na TLEBS, mas sem fornecer um programa concreto para cada nível de ensino. Muitas consultas pessoais e telefónicas à DREC, que, de concreto, nunca nos soube dizer nada, defendendo-se conforme podia.

Ora, o ano lectivo já vai avançado! E não é que, a fazer fé no que o senhor Secretário de Estado disse ao ´Expresso` numa entrevista publicada em meados de Novembro, a TLEBS só se aplica este ano lectivo nas escolas-piloto, devendo depois ser feita uma avaliação, da qual poderá sair como resultado que a TLEBS ficará muito bem arquivada lá no arcaboiço de onde, nunca por nunca ser, devia ter saído?

Ó meus amigos, mail para a DREC a solicitar que consulte o referido senhor para saber como é que é, se devemos ou não implementar a TLEBS, pois que a nossa não é uma escola-piloto. Resposta, quase imediata, da DREC informando que não dispõe de elementos para nos dar uma resposta e, por conseguinte, que iria consultar a DGIC, que não foi a quem nós solicitámos que a questão fosse posta.

E o Plano Nacional de Leitura? Esteve a senhora Ministra do ME na TV com outras personagens nele implicadas, a pintar tudo muito cor-de-rosa, quase fantasmagórico, mas na nossa escola, por falta de recursos humanos,  a pobre Biblioteca Escolar que temos tem estado fechada, quase desde o início do ano. E pretendendo concorrer à Rede Nacional de Bibliotecas Escolares, o caso está pardo porque, apesar de ser um edifício novo, parece não ter as dimensões exigidas.

Quanto ao Plano de Acção para a Matemática, disciplina de que se tem feito tanto sururu,  apesar do trabalho realizado pelos professores para a respectiva candidatura, chega a resposta dois meses depois,  só a acusar a recepção. Mais tarde, chega a tesoura económica dificultando a aplicação e o desenvolvimento do mesmo.

Quanto a efeitos didáctico-pedagógicos de formação, educação e instrução dos alunos, a legislação ultimamente produzida têm valor quase nulo. Agora, aumentar a burocracia e desgastar física e psicologicamente os trabalhadores da educação, nisso sim, conseguem ser arrasadores. É o que noto nos rostos e nas conversas da sala de professores do meu agrupamento de escolas, onde se anda à beira de uma crise geral de nervos.

O professor perdeu quase toda a sua 'autoridade` e uma grande parte dos alunos (quem sabe se apoiados por encarregados de educação impados dos seus novos poderes - "perdi os professores, mas ganhei a população"- ) passeia as mochilas pela escola, convive pouco educada e pacificamente e ´estão-se marimbando`   para o ensino-aprendizagem das aulas e os comportamentos de boa educação que os docentes lhes tentam incutir.

Acordo, hoje, bem de manhã, para iniciar novo dia de trabalho e o que ouço logo nas primeiras notícias da rádio? "54.000 neolicenciados no desemprego."

Afinal para quê adquirir conhecimentos, cultura,  competências (palavra hoje tão do gosto do ME) ? Para isto?! …

Para chegarem ao mundo de trabalho e serem rejeitados, em detrimento de outros com menos habilitação, mas que saem mais baratos aos serviços do estado, da indústria e do comércio? De outros que já entraram dez anos mais cedo que eles na vida activa? E eles que até cerca dos 25 anos viveram à custa dos pais e, agora, com um canudo de competências nas mãos, continuam a ter o mesmo triste fado?

Comecei então a sentir uma revolta muito grande cá por dentro por, enquanto professor, pensar ter sido um elo contribuinte da cadeia irisante que, ultimamente, tem, qual droga, conduzido alunos até à porta das Universidades e outros estabelecimentos de Ensino Superior.

E, já na minha escola, chorei por dentro, gritei para fora com todas as forças da minha alma, em convulsão nervosa, tão grande indignidade e os disparates que os governantes do meu país, que viveu um grandioso 25 de Abril com o ideal de "Paz, pão, habitação, educação, saúde" para todos, têm feito para chegarmos a este estado de coisas.

 E, por isso, logicamente, vejo-me agora obrigado a dizer: "Deixem-se de cantigas! Deixem trabalhar os adolescentes, enquanto é tempo de criar bons hábitos! Dê-se-lhes mais trabalho e menos escola, porque para a grande maioria deles, da escola enquanto instituição com a finalidade que tem, estão fartos dela até à ponta dos cabelos."

Fernando Neves

publicado por lamire às 05:31
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1 comentário:
De jn a 17 de Dezembro de 2006 às 01:35
Meu caro, colocámos on-line uma Petição Contra a TLEBS:
http://www.ipetitions.com/petition/contratlebs/tlebs.html (http://www.ipetitions.com/petition/contratlebs/tlebs.html)
Como 1º subscritor, convido-o a ler e, se concordar, assinar e divulgar.

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