Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

O CÓNEGO DR MANUEL PAULO

Quem de Coimbra até aos anos 80 e pico se não lembra dele?

O início da sua 'transfiguração` apanhou-o subitamente no refeitório do Seminário.

A sua estatura vertical, a cicatriz na cara fruto de séria doença que, na juventude, lhe bateu à porta tornavam-no, à primeira vista, um homem temível.Quem não se lembra disso quando, às quintas depois do almoço, enfrentava o ar sério do sr vice-reitor, junto à porta do refeitório dos padres, para pedir autorização de saída à baixa,tendo de alegar um motivo razoável, embora por vezes trapaceante? O seu acenar mudo e iterativo com a cabeça de cima para baixo ou da esquerda para a direita eram, respectivamente, a resposta afirmativa ou negativa ao solicitado.

Mas, na realidade, ele não era esse homem temível.Era um homem de coração doce e sábio, compreensivo e amigo. De rara inteligência e cultura; letrado e literato; de sábia e fina ironia não ofensiva que fazia rir a fraldas desfraldadas.

 

Quem não se lembra daquela sessão de abertura solene do Seminário em que, antecedendo o recursivo ´sursum corda` do monsenhor Abílio Costa que representava o sr Arcebispo, ausente em Roma para a 1ª sessão do Vaticano II,o Manuel Paulo, no relatório das actividades do Seminário se sai mais ou menos neste estilo: «E na Quinta do Seminário, onde ainda há pouco vicejavam umas raras e verdes couves galegas(riso geral da assistência)...

começa agora a erguer-se o Colégio de S. Teotónio»?

 

Ou, em idêntica situação, a sua coragem quando, na presença de D. Francisco Rendeiro, face aos novos problemas eclesiais emergentes do Vaticano II, ousa afirmar peremptoriamente, com o "ex cathedra" que a sua ampla visão eclesiológiga lhe conferia, a 'bomba`:«UMA IGREJA QUE, POR RAZÕES DE ORDEM DISCIPLINAR (o celibato), DEIXE OS SEUS FILHOS SEM PÃO NÃO É UMA IGREJA QUE É MÃE, MAS UMA IGREJA MADRASTA.» Era o começo dos tempos do pós-tridentino (infelizmente, passageira primavera garroteada quase à nascença), em que a crise de vocações e a raridade das ordenações começavam a afirmar-se. Isto ter-lhe-à custado a sua demissão do cargo de Reitor.

 

Exímio latinista e poliglota, com que osmose nos ensinava a saborear o "accentum" e o poder conciso das estruturas linguísticas latinas! Ou com que visão de fé, já esclarecida pelas novas luzes do Vaticano II, nos transmitia a Teologia Fundamental e a Eclesiologia!

 

Gostava também do bem-estar dos seus seminaristas.Quem não se lembra daquele toque de campainha, às tristes, em todas as prefeituras, com ordem de marcha para a sala dos azulejos? Aqui concentrados, o problema era o abuso do primeiro uso de calções num jogo de futebol. Tinha sido um escândalo! O Cónego Brito Cardoso, no terraço da CASA NOVA, digerindo ou em congestão do almoço face ao evento, exclamava aos quatro ventos: «Ó Amado, Ó Paulo, Ó Póvoa ... vinde ver, vinde ver!!!» De maneiras que o Sr. Reitor mais não teve que, após averiguações públicas fazer a seguinte declaração:«Os meus amigos puseram-me perante o facto

consumado.(..) Portanto, estão suspensos os calções, até novas ordens.» Claro que os ventos iam favoráveis, pois a transmissão dos Jogos do Benfica na taça dos Campeões Europeus, na quase incipiente TV portuguesa, que o Seminário já autorizava a ver, mostravam como é que se jogava equipado a rigor, sem batinas nem amplas calças pretas. E passados não muitos dias, às tristes,novamente a campainha encaminhava para a dita sala para se ouvir a sentença abonatória para os calções.

E era vê-lo, quase sempre na sua varanda, comprazendo-se com os seus semis a praticar desporto. Chegava mesmo a chamar a atenção àqueles que, normalmente, via afastados desta actividade libertadora de tensões (e tentações).

Fernando Neves [f_neves@mail.pt]

 

publicado por lamire às 01:56
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