Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

O Cónego Dr. Brito Cardoso

Hoje mais que nonagenário, continua ainda, na sua provecta idade, dedicado à investigação e à escrita que encetou ainda jovem com, entre outras publicações, os Evangelhos Sinópticos e a Sebenta de Sagrada Escritura.

Era um professor muito culto e de bom coração, de acentuada e sopranista pronúncia serrana, com alguns episódios que o tornaram inesquecível para os seus alunos.

Leccionava, além de Sagrada Escritura, grego clássico e bíblico e ainda hebreu, tudo línguas em que, enfim, a malta se via grega, mas em que ele era sábio mestre. Quem não se lembra do “cai caricacós”, do “smerdaléon autê” e de tantas outras sonoridades que para sempre ficaram gravadas na nossa memória?

As aulas de grego clássico eram na sala do piano, com porta, para o laboratório de física, junto ao refeitório dos padres. De configuração escolástica, sobre um alto estrado ficava a mesa do professor e, cá em baixo, as mesas de tábua única com os respectivos bancos corridos cujos assentos eram de levantar e baixar.

Ora, vistas assim as coisas à distância, compreende-se que o Cónego Brito Cardoso, olhando do alto da sua cátedra, somente visse ´em picado` as cabeleiras e a negridão das nossas capas e batinas, pois que os rostos esses ficavam, estrategicamente, inclinados para os grafemas do alfabeto grego que constituíam as palavras do texto do manual.

Então, porque não usava, como o cónego Amado, o malfadado saco das bolinhas da sorte, com divisória discriminatória para aparente casual castigo de algum comportamento indevido, e porque não se dedicava muito a gastar a memória com os nossos nomes, o Dr. Brito Cardoso chamava o aluno simplesmente com o seu “vamozz, filhinho”, que não obtinha resposta. Tinha de repetir o ´vamozz` até que algum desgraçado se condoesse ou alguém que tivesse escrito a tradução nas entrelinhas do texto grego levantasse a cabeça, dizendo:

- Eu, sr Doutor?

- Sim, filhinho, vamozz!

Esta palavra era um dos seus bordões fáticos que, enquanto o colega respondia à chamada, os outros se entretinham a contar com riscos na sebenta.

 

Quanto às aulas de Sagrada Escritura, além do fundamental que nos ensinou com profundidade, recordo também alguns momentos de boa disposição.

Certo dia, fazendo a exegese do texto sagrado, pedagogicamente, lança a pergunta retórica:

-«E o que dizz o evangelizzta?

Ora o João Evangelista, vulgo Stá Pinta, estaria a navegar noutros mundos.

Mas a interpelação “evangelizzta” alvoroçou-lhe os martelos do tímpano.

Como era rapaz inteligente e de discurso fácil, não se dando por achado, enceta o diálogo:

- O Sr Doutor podia repetir a pergunta, se faz favor!...

- Vamozz, filhinho, é o evangelizzta, mas o do evangelho - respondeu o bondoso professor.

 

Na exegese do episódio da expulsão dos vendilhões do templo aparecia o termo gazofilácio. Corridos os alunos um a um, não passava pela cabeça de nenhum a mínima ideia do significado de tão estranha palavra.

Explicado o termo e continuando a sua prelecção, chegou ao versículo referente às pombas onde Jesus diz: «Tirai isto daqui!»

- «Vamozz, e proque que dizz Jesuzz tirai izzto daqui?» Corridos novamente os alunos, já estes se aventuraram mais em mostrar algum conhecimento.

- «Porque as pombas são símbolo da paz» - aventava um

- «Porque a pomba representa o Espírito Santo» - respondia outro.

E por aí adiante, sem que nenhuma resposta satisfizesse o professor.

- «Vamozz, cambada de burinhozz. “Tirai izzto daqui” ´proque` azz pombazz ezztavam dentro de gaiolazz e não podiam voar.

 

Em qualquer matéria de dúbia discussão, lá vinha a sua máxima preventiva de

espalhanço:

- «Vamozz, filhinhozz, nezzte assunto, é necessário ezztar como o Senhor dozz Paçozz: um pé adiante e outro atrázz, para não cair.» Bom homem, sem dúvida. Que Deus o conserve ainda por muitos e bons anos, activo nas suas pesquisas.

Fernando Neves [f_neves@mail.pt]

 

publicado por lamire às 00:50
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