Quinta-feira, 13 de Abril de 2006

O diálogo de culturas segundo Teilhard de Chardin

O 50.° aniversário da morte do célebre padre jesuíta Teilhard de Chardin foi assinalado em 2005 em diversos países, entre eles a China e o Egipto. Nasceu em 1881 e veio a morrer no domingo de Páscoa de 1955 como sempre havia desejado. Deixou uma vasta obra em que se incluem livros e correspondência que revelam a grandeza do seu pensamento e apresentam a visão de Deus, do mundo e do homem e a mística profunda que o caracterizava bem enraizada no espírito de S. Paulo.

Evidenciou-se como grande geólogo e paleontólogo, fomentou diálogos com pessoas de todas as origens e condições: cientistas e teólogos, filósofos e homens de letras, economistas e artistas. Absorvia-o o mundo cultural e religioso e, como homem planetário, estava atento aos tempos e à enorme diversidade de povos e civilizações, de convicções religiosas e de tradições.

Nada e ninguém lhe eram indiferentes, manifestava uma grande perspicá­cia nas suas pesquisas e uma singular fidelidade e resistência espiritual. Alargou consideravelmente a sua visão do mundo e do homem e abriu-se aos debates contemporâneos tomando como ponto de referência a bússola da Reve­lação, a fonte evangélica e a tradição. Conheceu incompreensões de vária ordem, dentro e de fora da Igreja por certas posições tomadas. Henri De Lubac foi um que defenderam o pensa­mento do seu confrade jesuíta no livro "La pensée religieuse du Père Teilhard de Chardin».

Em Teilhard encontramos uma vida intensa e sabiamente orientada, incan­sável em viajar, em manter relações fortes, debruçando-se em reflexões profundas, valorizando a correspon­dência com muitas pessoas, fazendo da China a sua terra privilegiada. Como dizia há pouco na Universidade de Évora o príncipe ismaelita Aga Khan e que Adriano Moreira tem su­blinhado frequentemente o pior que pode suceder nas relações entre as di­versas culturas é a ignorância mútua que os povos têm entre si. Por vezes parece que se cultiva o desconhecimento como sinal de evasão ou superioridade.

O Padre Teilhard foi professor de física e de química no Cairo, fez estudos científicos em Paris, viveu a Grande Guerra e fundou o Instituto de Geobiologia de Pequim. Um homem em acção constante que assim conseguiu alcançar uma visão global e coerente da sociedade e do mundo. Um dado fundamental em Teilhard é a sua ideia de evolução exterior e interior, visível e invisível, científica e mística. Segundo ele o homem é unificado interiormente sem ceder a qualquer tipo de determinismo, pois a liberdade não se opõe a Deus que com a sua dinâmica dá o sen­tido à história.

O mundo está em evolução e em génese, num triplo movimento em que entram além do elementos evolutivo a complexidade e a interiorização. O crescimento e a unificação são uma constante entre os dois pólos de origem e de realização total em que têm lugar relevante Deus, Alfa e Omega da história, a ascensão e o crescimento permanente, Cristo ressuscitado e o amor como força motor. Na evolução cultural, científica, política, religiosa e económica das sociedades há uma visão global e o homem vai descobrindo e desentranhando o Universo.

Em Teilhard, temos o defensor da alteridade, do respeito e dos direitos do Outro, das riquezas e convicções de cada um, pelo que o podemos considerar como um exemplo do diálogo de culturas, religiões e civilizações. Para ele, Cristo está no coração de tudo, um Cristo à dimensão do universo.

Podemos dizer que se antecipou aos grandes debates mundiais de hoje, como foi evidenciado em colóquios realizados nas últimas décadas do séc. XX. Uma das suas ideias interessantes é esta: não opor mas articular os avanços religiosos e científicos. "Sim, eu queria reconciliar com Deus o que há de bom no mundo moderno: as suas intuições científicas, os seus apetites sociais, a sua crítica legítima». Falava da "esquizofrenia cultural" que nos espreita quando queremos estabelecer separações e barreiras intransponíveis entre as diversas culturas e religiões.

Em Teilhard entrevemos a interdisciplinaridade efectiva, pois nenhum sector por si pode responder aos problemas que se colocam. O processo de socialização é, na sua obra, a entender como um movimento irreversível de globalização e de mundialização, a organização social sendo o fruto da liberdade e do amor. A combinação de raças e de povos, a multiplicação e a importância crescente das relações internacionais conduzem a «definir desde logo, nas suas linhas maiores e no seu dinamismo interno, a coisa de que a nossa acção tem mais necessidade: uma ética internacional». Pensamento e ética são inseparáveis.

Mas há uma exigência moral imprescindível para realizar o homem. «É impossível levar concretamente para diante um certo número de progressos da consciência humana sem que, auto­maticamente, este poder de circunstâncias reflectido não se imbua de obrigações internas...ao mesmo tempo que gera uma atmosfera inteiramente nova de exigências espirituais».

As religiões que são um facto evidente contribuem para o desenvolvimento da pessoa, em especial na sua dimensão mística. Estabelece-se uma comunhão das consciências, uma experiência humana total e a introdução na plenitude e mistério. «Não nos aproximaremos do Absoluto através de uma viagem mas pelo êxtase. Não estamos prisioneiros. Há uma saída e aragem, luz e amor para além da morte. O saber sem ilusão nem ficção. Eis o que precisamos absolutamente sob pena de morremos asfixiados pelo nosso ser. E eis onde se descobre o que ousaria chamar o papel evolutivo das religiões».

Os homens são levados por um flu­xo irreversível que as rupturas e os obstáculos mais resistentes não podem bloquear numa corrente de amor que os congrega. Para além das desigualdades e males, a humanidade caminha em busca do Homem, dos direitos, da paz e da felicidade. Cada um está penetra­do dessa força constante que arrasta para cima. O homem em vez de ficar preso num universo cego e hermeticamente cego deve abrir os olhos para a realidade: «Espectáculo estranho na verdade e de que depois de muito tempo eu não consigo desviar a minha atenção é que na Terra o cuidado de milhares de engenheiros se absorvem no problema dos recursos mundiais, carvão, petróleo ou urânio, e que ninguém, pelo contrário, não se preocupe em entender o gosto humano de viver: para ver a temperatura, para alimentar, para cuidar e porque não, para o aumentar». O que hoje equivale a dizer: prezar o humanismo, a qualidade de vida e o ambiente com tudo o que é inerente a cada uma destas áreas.

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in:Correio de Coimbra, 13abril06

publicado por lamire às 00:07
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