Quinta-feira, 16 de Março de 2006

A CHAVE DO ALELUIA

A história corria de boca em boca, mas já se escoara na memória dos tempos o quando, o onde, o como, o quem. Tal como nos mitos, o episódio já se tinha transformado numa gesta de tempos passados, irreais e fabulosos, incapaz de renascer e retomar um corpo são e robusto.
Naquela noite de Sábado Pascal a Sé de Coimbra estava repleta de fiéis, de seminaristas, de cónegos para participarem nas cerimónias pascais: a bênção do lume novo, a bênção da água, toda a liturgia que ia culminar no radioso canto do “Glória” acompanhado pelo repicar dos sinos, pelo toque de quantas campainhas o Sr. Américo sacristão conseguira granjear ao longo da semana mais longa.
A toda esta ilustre assembleia presidia, na sua cátedra com baldaquino, o Sr. Arcebispo, Bispo de Coimbra.
A celebração pascal que se alongava por horas e horas, decorria com toda a solenidade, com a maior devoção e recolhimento, ouvindo-se apenas as vozes jubilosas do orfeão, estrategicamente colocado no coro alto da Sé, vozes que se dispersavam pela imensidão da abóbada da Catedral.
A noite já ia quase a meio. Aproximava-se a hora precisa e exacta. O “Aleluia” estava prestes a ser aberto. Mas não aparecia a bendita “Chave do Aleluia”! Por mais voltas que se dessem, por mais vezes que as mãos rebuscassem os fundos dos bolsos das calças e das batinas, não se encontrava a bendita chave. O tempo urgia e já a ansiedade e a vergonha tomavam conta do espírito do mestre cerimónias. O grupo dos “roquetes” andava numa roda-viva, vasculhando atrás do altar-mor, em cima e por baixo da credência, em torno do trono episcopal, mas… tudo em vão. O desespero e a angústia ia-se apoderando de todos. Até um ou outro Sr. Cónego mais desperto se ia apercebendo do trágico da situação. Era quase meia-noite e o “Aleluia” por abrir!
Nestas circunstâncias extremas não se pode olhar a meios par alcançar o objectivo final: encontrar a “Chave do Aleluia”.
O Luís Carlos chama discretamente um dos “roquetes”, o Nunes, e pede-lhe que se dirija rapidamente ao coro da Sé e peça ao Borges, um dos membros do orfeão, a bendita chave. Os olhos do Nunes brilham na noite porque se sente o escolhido, o eleito para o desempenho de tão nobre e secreta missão. Não perde um momento. Parece que leva asas nos pés. Percorre a coxia central do templo e voa para a porta que dá acesso à sacristia e ao amplo corredor de pedra. A sua cabeça não pára de ser metralhada pela mesma ideia: “É quase meia-noite e o “Aleluia” por abrir!”. Já no amplo corredor de pedra corre, célere voa. A vasta escadaria de pedra galga-a em segundos, acicatado por aquela ideia angustiante que lhe continua a martelar o espírito.
Sem saber bem como, já está no coro da Sé. Dirige-se ao Borges: “O Luís Carlos pede a chave do “Aleluia”. È quase meia-noite e o “Aleluia” está por abrir.”
Ora manda a verdade que se diga que o “servicinho” não tinha sido previamente combinado. Mas uma verdadeira reminiscência fez chispar a ideia no espírito do Borges. Sem mais aquelas, sai ligeiro do coro e dirige-se para as dependências anexas da Sé que eram ocupadas pelo Sr. Américo sacristão. A escuridão da noite era apenas avivada pelo clarão da iluminação pública que escorria das janelas. Aquele compartimento estava há muito desocupado e apenas servia para guardar trastes velhos. Naquele lusco-fusco o Borges lança a mão e sente um objecto frio, pesado e longo. Mas não há tempo a perder, o que vem à rede é peixe. Entrega-o nas mãos do Nunes.
Este parte ligeiro com a sua querida “chave do Aleluia”. Nem olha para o que leva: a sua missão é só levar. Não se discute o objecto. Desce em segundos a imensa escadaria de pedra com o objecto bem seguro na mão direita e apoiado no ombro branco do “roquete”. “É uma chave bem pesada – vai pensando.” Já entra na Sé todo ufano. Os olhos pasmados de todos os fiéis estão colocados sobre ele. Sobre ele não, sobre o objecto que ele transporta: um pedaço de ferro bem longo e bem ferrugento que se usa atravessado nas camas de ferro para suportar o colchão. Era nem mais nem menos que uma dessas travessa de ferro das camas que ele agarrava sofregamente na sua mão direita e apoiava no ombro. Eis a bendita chave! Cá vai ela! Cá vai ela! Deixem-me passar! Deixem-me passar!
Na coxia central da Sé o atleta já vislumbra a meta lá ao fundo, junto ao altar-mor. Um pouco mais e cortará a meta em beleza e em glória com o aplauso unânime de todos
Aligeira o passo, apesar do peso, porque está mesmo em cima da hora de abrir o “Aleluia”. Ei-lo que desemboca sorridente no espaço sonolento reservado aos senhores cónegos. Um deles, o sr. Cónego Eurico olha, estupefacto, e deixa escapar um sorriso cúmplice. Com a meta à vista já não há ninguém que pare o vencedor. O último obstáculo está a ser ultrapassado. Respeitosamente, com o ferro ao ombro, ajoelha ao passar em frente do trono com dossel do Sr. Arcebispo que imagina estar já, alta madrugada, com algum sonho invulgar e requintado.
Por detrás do altar-mor ninguém consegue conter o riso. Até o próprio mestre cerimónias, alertado para a situação, perde a compostura. Do lado do coro alto da Sé por momentos perderam-se os acordes e as vozes melodiosas dos tenores, dos baixos e dos barítonos. Ecoa por aquela vastidão imensa uma imensa ovação ao vencedor.
O Nunes, esbaforido mas triunfante, deposita o maravilhoso troféu nas mãos de quem lho tinha pedido.

Luís Carlos (16-03-2006 - 10:56:38 AM)

publicado por lamire às 10:58
link do artigo | comentar | favorito
|

.SIC

.Março 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
26
27
28
29
30
31

.links

.pesquisar

 

.artigos recentes

. Exposição de Desenho, esc...

. XVIII Encontro SIC em Pom...

. Nesta noite de Natal

. Cónego Adriano Santo: Obr...

. Parabéns duplicados

. Faleceu o Celestino Mende...

. Pai de Padre Luís Leal, P...

. Padre de Lúcia já é bispo

. Operação Permanente de So...

. 17 encontro dos ex aluno...

. Religião: D. João Lavrado...

. AIC homenageia Cónego Adr...

. Centenário de Mons. Raul ...

. Cónego Dr. Manuel Paulo f...

. Al-BAIÄZ, Associação de D...

. Grupo de Ex funda OPS com...

. João Dias na despedida de...

. Família de quatro vive se...

. 25 anos de Bispo

. Reconhecimento Merecido

. Testemunhos vivos

. Bodas de ouro sacerdotais...

. Programas de Solidariedad...

. Ex.s - DEZ MANDAMENTOS

. Recado do Papa aos Bispos

.arquivos

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Dezembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

.temas

. todas as tags

.subscrever feeds